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Livro desconstrói o mito da praia democrática ao mapear suas tribos e territórios na faixa de areia

Pesquisa

Obra está disponível para leitura, gratuitamente, pela Essentia Editora do Instituto Federal Fluminense (IFF).
por Ferdinanda Maia / Comunicação Social da Reitoria publicado 15/08/2019 16h02, última modificação 16/08/2019 14h40
Exibir carrossel de imagens Da esquerda para a direita: Jéssica, Fernanda e Juliana falaram sobre a obra.

Da esquerda para a direita: Jéssica, Fernanda e Juliana falaram sobre a obra.

 Talvez você, leitor, esteja entre as milhares de pessoas que enxergam a praia como um dos lugares mais democráticos da vida em sociedade: local público, criado por Deus, onde qualquer um pode chegar, estender sua canga, abrir sua sombrinha e aproveitar o sol e o mar. Certo?

 Bom, para a autora e pesquisadora Fernanda Pacheco Huguenin nunca foi assim. “Isso sempre me incomodou e eu já conseguia visualizar desde a minha infância e juventude”, conta, referindo-se ao lado perverso e desigual que existe na bela e ensolarada faixa de areia.

 Ao cursar o doutorado em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UNB), Fernanda foi a campo e durante um ano morou em Ipanema, no Rio de Janeiro, para entender qual o nível das relações que se dão na praia. “Pensar a praia a partir da perspectiva da cultura brasileira de que a praia é um espaço democrático... um mito de que a praia acolhe a todos, independente de raça ou classe social, quando na verdade é um grande espaço de conflito”, explica o seu ponto de partida. 

Negros, brancos, ricos, pobres, estrangeiros, brasileiros, quer dizer, a areia realmente é a democracia. (Ruy Castro)

 A autora fez amizade com os moradores, passou a frequentar os lugares e foi aí que percebeu a importância do seu trabalho: de pensar o espaço público – que muitas das vezes é visto como privado -, a democracia e os preconceitos. Fernanda aprendeu com a praia, enxergou nela territórios e tribos que se envolvem por afinidade estética, comportamental, e se diferenciam por delimitações sociais e fronteiras simbólicas.

 A pesquisa para sua tese também se tornou o livro “O mito da praia democrática: um ensaio sobre Ipanema, sua bossa e seus banhistas”, lançado pela Essentia Editora nessa quarta-feira, 14 de agosto, na Uenf, em Campos. O evento “Conversa com o autor” teve a participação de Fernanda ao lado de suas convidadas Jéssica Oliveira, mestranda em Políticas Sociais e Juliana Blasi Cunha, pós-doutoranda de Sociologia Política.

 Antes do evento, conversamos rapidamente com ela sobre a obra:

IFF: Você trata de uma questão muito cara ao brasileiro que é o “ir à praia”, um hábito carregado de memória afetiva e familiar. Mas você toca em algo profundo também que são as disputas sociais. Como foi esse processo?

Fernanda: Estudar a praia é igual a puxar um novelo de lã porque, quanto mais puxa, mais desembola este emaranhado que parece ser a ideia que se tem sobre a praia. Existe este mito de que a praia no Brasil é um espaço democrático e em certo sentido, de fato, ela é porque o acesso é livre a toda e qualquer pessoa, independente de classe, raça, gênero, etc. Mas a minha ideia foi pensar qual o nível das relações, uma vez que as pessoas se encontram na praia; se de fato são relações igualitárias porque a praia não é nem a casa, nem a rua, as pessoas não estão nuas, mas também não estão vestidas, então eu chamo no meu trabalho de um lugar de liminaridade: um entre lugar, um lugar que não é isso, nem aquilo. Então, será que as relações são assim também? Ao puxar essa linha desse novelo eu fui descobrindo que não, que as relações não são igualitárias, ou seja, a praia é totalmente territorializada, as tribos se organizam no espaço de modo que uma não invade o espaço da outra. 

IFF: Por que falar disso e qual a contribuição do seu livro?

Fernanda: Eu tento pensar a cidade a partir da praia. É um trabalho de Antropologia Urbana que está pensando o espaço público. Retomei a chegada do metrô e o arrastão que aconteceu na praia de Ipanema, em 1992, que teve uma repercussão muito grande na mídia nacional. Então, o que este espaço público, este espaço da praia, coletivo, dito democrático pode revelar da nossa sociedade em termos de desigualdade, enfim... aí eu acabo descobrindo uma estratégia que eu chamo de “demofobia”, que limita ou deseja limitar a questão, por exemplo, do transporte público. Os moradores que eu entrevistei de Ipanema não desejavam a chegada do metrô com medo da popularização do bairro e da tomada do espaço da praia. A praia passa ser pensada não como um espaço do encontro, mas sim como um espaço da disputa.

IFF: E por que Ipanema?

Fernanda: Eu estudei Ipanema como o lugar mais emblemático do Rio de Janeiro e do Brasil, nosso cartão de visita para o exterior, nosso cartão-postal.

IFF: Você acredita que esta realidade de Ipanema se reflete em outras praias do Brasil?

Fernanda: Embora eu tenha estudado Ipanema, acredito que esta ideia pode ser estendida a outros lugares no Brasil inteiro. A gente vê que as praias sofrem um processo muito grande de especulação imobiliária. Nossa região aqui, Grussaí, Atafona, praias de São Francisco, se você pesquisar a região do Norte Fluminense também vai encontrar estas tribos, divisões de classe, essa questão do transporte que é muito forte: praia onde tem facilidade de acesso das classes populares, você não encontra pessoas da elite ou encontra uma resistência muito grande em relação à valorização daquele espaço.

IFF: É uma questão social; a praia, na verdade, reflete o que já existe na nossa sociedade. É possível enxergar um lado positivo?

Fernanda: A praia é este espaço da ambiguidade: por um lado ela está dividida, está territorializada, tem muitas tribos que só não entram em batalhas porque cada uma está no seu quadrado. Este é um lado, talvez o mais perverso desta desigualdade toda. Por outro lado, pensa na situação de um afogamento, de uma criança perdida na praia, ali você vê os laços de solidariedade entre as pessoas. Então, não dá para imaginar que a nossa sociedade reproduza desigualdade a todo tempo e que não tenha um espaço para empatia, para solidariedade. A praia pode ser também o nosso grande símbolo de democracia e de igualdade e liberdade.

 

 Saiba mais sobre “Conversa com o autor”: o evento, realizado pela Essentia Editora, terá várias edições ainda em 2019. A editora do IFF acaba de publicar sete livros, sendo quatro frutos dos editais de apoio à publicação de livros impressos que o instituto lança anualmente, aberto à comunidade. As obras estão disponíveis para download no site e também são distribuídas durante o evento. “A conversa com o autor é uma ideia que surge para tornar o lançamento do livro mais interativo, para o público dialogar com o autor, para ele falar sobre seu processo de criação”, explica Inez Barcellos, membro da Comissão de Editores Científicos da Essentia Editora.

 O próximo lançamento será no dia 21 de agosto, do livro "Temas em Educação Profissional e Tecnológica", cujos organizadores são Francisco das Chagas Silva Souza e Albino Oliveira Nunes.