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Não nos dê parabéns, lute conosco

8 de março - Dia Internacional da Mulher

Coordenadora do Nugedis do Campus Bom Jesus, Sarah Vervloet escreve sobre o Dia Internacional da Mulher, celebrado internacionalmente no dia 08 de março.
por Sarah Vervloet Soares* publicado 08/03/2021 14h17, última modificação 08/03/2021 14h23

O que se comemora no dia internacional da mulher? O cenário pandêmico atual escancarou as desigualdades sociais no Brasil cujos impactos continuaremos sentindo por longo tempo. A intensificação da convivência doméstica e familiar também revelou, ainda no primeiro semestre de 2020, o aumento da violência contra meninas e mulheres – além, é claro, da desproporcional divisão de tarefas de organização e cuidado no interior dos lares. Somos parabenizadas por isso? A Pandemia de Covid-19 e suas medidas sanitárias emergenciais não são causas dessa violência, mas precisamos enxergá-las como fatores de agravamento da violência de gênero contra meninas e mulheres de todas as idades, assim como as crises socioeconômicas já vistas mundialmente. A mensagem que nos fica é a seguinte: nosso país ainda está longe de superar as desigualdades de gênero – e não só entre cisgêneros, mas também entre lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, transgêneros, queer  e mais.

As mulheres cisgêneros e LGBTQi+ que leem este texto sabem disso. Sabemos disso porque a violência de gênero não nos afeta somente naquelas situações de brutalidade contra nossos corpos, ela é estrutural e, por isso, sofremos dentro de nossas próprias casas para dar conta de home office, faxina, refeições e filhos. Ou sofremos do lado de fora, afinal, faz um ano que tivemos conhecimento da primeira vítima fatal do coronavírus: uma mulher, empregada doméstica que não podia faltar ao seu trabalho no Leblon. Seu nome? Não sabemos. Assim como não sabemos os nomes das mulheres que sofrem estupro ou violência sexual neste momento, pois isso acontece a cada oito minutos neste país. Por que somos só números?

Nos meses de agosto a setembro de 2020, o Núcleo de Estudos sobre Gênero, Diversidades e Sexualidades (Nugedis) do Campus Bom Jesus do Itabapoana realizou um Ciclo de Debates no formato remoto e seu primeiro tema de discussão colocou em pauta as condições da maternidade e do trabalho na atualidade. Professoras e mães participaram com relatos de uma realidade que nos faz refletir sobre a importância de ampliar o debate para as instituições públicas e privadas, e devo sublinhar: nós, mulheres, já conquistamos muitos espaços institucionais, mas exigimos equidade salarial, direitos fundamentais e condições suficientes para preenchermos todos os espaços de trabalho, sem exceção. Essa é uma das lutas do movimento feminista: direitos equânimes e, para tanto, faz-se necessário escutar nossas vozes. Ora, a que nos serve o dia internacional da mulher?

Segundo a Rede de Observatório da Segurança, cujo intuito é monitorar e difundir informações sobre segurança pública, violência e direitos humanos, o Brasil é o quinto país com o maior índice de feminicídio no mundo e, mais uma vez, não é preciso ir muito longe para compreender as causas disso. Questionei mulheres que vivem à minha volta sobre qual a primeira coisa que elas fariam se soubessem que os homens sumiriam do planeta por 24 horas. A resposta quase unânime dizia respeito a “sair tranquilamente na rua, sem medo de olhares constrangedores ou coisa pior”. Caminhar à noite, fazer atividade física em qualquer horário, usar a roupa que desejar, essas são ações que parecem simples e tornam-se difíceis na presença masculina. Por quê? Se olhares, atitudes e comportamentos regulam nosso modo de ser, nossos corpos e nossas vidas, não há dúvida de que qualquer data capaz de fomentar essas reflexões se torna urgente – não para presentear com flores e bombons, exaltar, elogiar. O dia internacional da mulher é mais um dia de luta coletiva, e de todos os gêneros.

Então, o que fazer? Num espaço tão limitado que é este texto, deixei de lado o recorte étnico-racial, imprescindível para o debate sobre a violência contra as mulheres, assim como outras vertentes feministas, as quais devem ser estudadas e compreendidas, cada vez mais, dentro de seus contextos de discussão. Neste país, morre-se por ser mulher, mas morre-se muito mais por ser mulher negra, por exemplo. Não há, pois, o que comemorar quando um indivíduo se sente superior ao outro, capaz de dominar outros corpos e outras vidas. Hoje é o dia de relembrar as injustiças e as lutas, mas o debate é tão amplo que deve ser reafirmado todos os dias em casa, no trabalho, na escola, em esferas públicas e privadas. Não basta ser contra o machismo e o patriarcado, deve-se lutar diariamente pela liberdade dos nossos corpos, de todos os corpos. Fazer-se perceber e perceber quem vai ao lado: o preconceito surge, na maioria das vezes, da maneira mais sutil. A misoginia se encontra nos atos mais comuns. E nada disso é normal, lembre-se. Modificar o próprio comportamento em respeito às diversidades é apresentar-se à resistência diária, necessária e potente, essa, sim, a palavra legítima para o dia de hoje: (à) luta.

Se você sofre ou presenciou algum tipo de violência contra as mulheres, denuncie.

Disque 180 (Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres).

*Sara Vervloet Soares é coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Gênero, Diversidades e Sexualidades (Nugedis) do Campus Bom Jesus do Itabapoana e Professora de Língua Portuguesa.