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Encerramento do Novembro Negro destaca a importância da leitura

Evento

Conferência foi ministrada pela professora Iris Amâncio, na noite desta quinta-feira, 19 de novembro.
por Comunicação Social da Reitoria publicado 19/11/2020 20h45, última modificação 19/11/2020 20h57

 Às vésperas do Dia Nacional da Consciência Negra, o Instituto Federal Fluminense realizou o encerramento do evento Novembro Negro – Lutas e desafios da população negra: violência, resistência e protagonismo, na noite desta quinta-feira, 19 de novembro.

 A conferência teve como foco a literatura negra e a importância da sua apropriação para combater o racismo. Foi ministrada pela professora Iris Amâncio que destacou o papel da educação, do livro e das leituras como ferramentas fundamentais para a construção de um futuro mais justo e igual entre as pessoas, independente da sua raça.

 Com o tema Letramento Afro-literário - literaturas africanas, literatura afro-brasileira e literatura negra: conceitos e pressupostos para leituras e ensino, Iris começou a sua fala fazendo uma provocação. “Neste encerramento do evento em que várias discussões foram realizadas, a pergunta que faço é: e daí? Esta provocação que trago é para nos fazer pensar, nos provocar, no sentido de que a gente possa indagar, sair deste evento com questões que vão nos fazer ver o mundo diferente, pensar as relações raciais de maneira diferente, garantir que a gente não deixe de enxergar que o racismo está entranhado na sociedade”, disse.

 Segundo ela, é crucial pensar em aspectos que permeiam a convivência social e as relações raciais no Brasil.  “Efetivamente somos antirracistas? Também na lógica desse “e daí?”, como podemos enxergar caminhos nesta opressão que obriga negros e negras a ter que continuamente resistir? Porque a palavra-chave é resistência, mas vamos resistir a vida inteira? Para chegar em que estágio?”, ressaltou.

"Você só é racista quando você nega a dignidade da outra pessoa por ela ser negra."

 Ela definiu que a consciência negra, na prática, é quando a pessoa se incomoda, se recusa, quando a pessoa vê o racismo no cotidiano e não aceita que haja mais o racismo entre nós. “Uma consciência que está baseada na afirmativa de que somos todos seres humanos e temos em comum a mesma condição. A consciência negra nos faz também afirmar que, sendo sujeitos, é fundamental que nós tenhamos competência e habilidade para conviver nas nossas diferenças, na diversidade étnico-racial”, afirmou.

 E como ferramenta para construir de maneira mais sólida um outro perfil de estrutura na mente das pessoas, ela destacou a leitura, a aquisição de informações e de conhecimentos para que possam, de fato, mudar a forma de pensar, ver e agir em relação ao racismo que é estrutural e ensinado desde a infância.

 “Se nós levamos, historicamente, uma vida que está calcada no entendimento de que pessoas negras não podem pensar, ter um bom salário, um trabalho digno, habitação, etc, a leitura literária é ferramenta porque ela alimenta a vida, toca a alma e carrega sensibilidades. Ao invés de lermos apenas livros do universo literário branco, que tal a gente ler literatura produzida por escritores negros?”. Para Iris, o conhecimento da cultura, da história negra, dos costumes provoca mudanças nas mentes das pessoas. “O racismo existe, é estrutural e está em nossas cabeças. Se queremos, de fato, ser antirracistas, nós precisamos dar passos sólidos nesse sentido”, afirmou.

 A palestrante alertou que existe todo um contexto social que nega às pessoas o direito de interagir com conteúdos, produções e informações que sejam de origem negra, e ponderou sobre o impacto de professores ensinarem a seus alunos a lerem autores negros. “Quem lê tem uma visão de mundo diferente das pessoas que não leem essas literaturas”, finalizou.

 O Novembro Negro, evento tradicional do Instituto Federal Fluminense, foi realizado de 16 a 19 de novembro com uma vasta programação online, pelo IFFTube. Outras informações podem ser conferidas no site oficial.


IRIS AMÂNCIO é professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, de Literatura Portuguesa e de Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Federal Fluminense. Doutora em Estudos Literários/Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (2001), desenvolveu pesquisa em nível de Pós-doutorado junto à Universidade Federal de Minas Gerais e à Universidade de Coimbra em 2014, sobre o Ensino de Literaturas Africanas. Participa da coordenação do LICAFRO - Laboratório de Literaturas e Culturas Africanas e da Diáspora Negra da UFF (CNPq), colabora com vários NEABs (Núcleos de Estudos Afro-brasileiros), além de participar de diversas iniciativas científicas, socioculturais e políticas no Brasil e no Exterior, voltadas para as literaturas e culturas africanas e afro-brasileira, as relações coloniais Portugal-África, assim como para a problematização das relações étnico-raciais. Tem livros (ensaio e literatura infanto juvenil) e artigos acadêmico-científicos publicados. Em 2019, foi agraciada com a Medalha Santos Dumont pelo Governo do Estado de Minas Gerais, por seus relevantes feitos em prol da educação nacional. Atualmente, dedica-se a projetos voltados para a produção literária de mulheres negras africanas e afrodiaspóricas; o Teatro Africano de Língua Portuguesa; a edição e circulação mercadológica de obras literárias de escritoras e escritores negros; a inovação social por meio da edição de livros junto à Nandyala Editora; e a promoção da bibliodiversidade étnico-racial e de gênero.