Notícias
Entrevista
Físico convidado de aula inaugural do MNPEF fala de avanços na formação de professores
O professor Marcello Ferreira destaca o avanço obtido na formação de professores de Física para o Ensino Básico (Foto: Divulgação).
O físico Marcello Ferreira é professor e vice-diretor do Instituto de Física da Universidade de Brasília (UnB) e ex Pró-Reitor de Pós-Graduação da Sociedade Brasileira de Física (SCB), sendo também credenciado ao Centro Internacional de Física (CIF). É doutor em Educação em Ciências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestre em Ensino de Física e graduado em Física pela UnB. Nesta entrevista, concedida a Assessoria de Comunicação Social, Marcello fala sobre o alcance dos cursos de especialização e de como o MNPEF é organizado para proporcionar a seus alunos o sucesso esperado.
Ascom - Tínhamos uma dificuldade para formar professores da área, sendo comum às vezes um matemático lecionar Física. Isso mudou no país?
Marcelo Ferreira - O Brasil evoluiu muito com as políticas de formação de professores desde o primeiro governo Lula. No Censo do Ensino Superior de 2018, por exemplo, nós tivemos um dado de que apenas cerca de 22,5% dos professores que lecionavam Física na Educação Básica tinham graduação propriamente em Física. Os demais ou não tinham graduação, porque ainda havia esse tipo de perfil no país ou, o que é mais comum, tinham graduações em outras áreas como Matemática, Engenharias ou mesmo Biologia ou Química. Portanto, até aquele momento, de cada quatro professores que ensinavam Física na Educação Básica apenas um, de fato, era graduado em Física. Esse cenário evoluiu. O Censo de 2022, por exemplo, já mostrou um índice da ordem de 55% dos professores. Portanto, a cada dois professores da Educação Básica, um era formado em Física. Vale ressaltar que esses percentuais podem variar conforme a métrica – porque, em alguns casos, considera a função docente; em outros, o CPF da pessoa que responde ao censo, e isso pode variar porque um professor pode atuar em mais de uma função docente, em duas ou três escolas, por exemplo. Mas, a ordem de grandeza é essa e se trata de um diagnóstico que aponta que as políticas públicas de formação inicial têm caminhado bem no Brasil. O déficit era muito grande. Portanto, a gente vai ver esse impacto de mais longo prazo.
Ascom - Mas segue avançando?
Marcelo - Em cerca de seis anos, políticas públicas como o Fies, o financiamento estudantil, o programa Universidade para Todos, o programa Universidade Aberta do Brasil e outras políticas foram permitindo que o número efetivamente de professores graduados na área de Física aumentasse. Naturalmente, esse aumento na formação precisa ser acompanhado de reflexos concretos na qualidade da Educação Básica. Lamentavelmente, isso ainda não é perceptível. O Brasil continua sendo um dos últimos colocados nos exames de aferição internacional, como é o caso do Pisa, que avalia habilidades em leitura, linguagens, matemáticas e ciências, e quando nós analisamos micro dados do ENEM, por exemplo, que demonstram que os desempenhos dos estudantes na área de Física ainda estão muito aquém daquilo que seria o necessário. Óbvio que essa a qualidade da educação é um projeto muito mais amplo do que a formação dos professores. O professor precisa ser formado na área, é bem verdade, mas ele precisa ter uma carreira adequada, condições de trabalho e infraestrutura na escola. O material didático tem que ser adequado; os estudantes têm que ter transporte e merenda escolar, condições de estudar, qualidade de tempo na escola básica e outros fatores que corroboram para a qualidade. É um conjunto, mas a gente precisa fazer o registro de que o nível de formação melhorou muito na formação inicial e os dados também vão apontar que na formação continuada, tanto pós-graduação lato sensu quanto mestrado e doutorado também aumentaram, mas ainda com as defasagens de qualidade que precisam ser cuidadas pelo país ao longo do tempo.
Ascom - O Mestrado de Física colabora na melhoria dos indicadores?
Marcelo - O Programa de Pós-Graduação Ensino de Física em rede, que é o MNPF - o Mestrado Nacional Profissionalizante em Ensino de Física -, se insere no conjunto das políticas públicas do Governo Federal que são dedicadas à melhoria dos indicadores da Educação Básica de forma geral. O Plano Nacional de Educação (PNE) coloca uma série de metas e uma delas é a totalidade dos professores que atuam na Educação Básica brasileira graduados na respectiva área do conhecimento. Mas, ele coloca algumas metas para a formação continuada, como, por exemplo, que pelo menos 50% dos professores tenham pós-graduação lato sensu, conhecida como as especializações, e que 33%, um terço deles, tenha pós-graduação stricto sensu - mestrados e doutorados -, que é precisamente onde se insere esse programa em rede, de 63 universidades, que é um análogo a várias outras áreas do conhecimento que dispõem de formação em rede de mestrados nacionais, como a Matemática, como a Língua Portuguesa, como a Geografia, História, Educação Física e por aí vai. Então, esse Programa vem nessa linha de atender as metas do PNE quantitativamente e qualitativamente, de corroborar para a melhoria da qualidade da educação.
"A qualidade desse Programa tem uma implicação muito forte, muito consistente com aquilo que o País projeta pra sua formação em Física"
Ascom - É possível termos uma noção da extensão da pós-graduação para os profissionais do ensino básico?
A gente sempre pode atualizar esses dados porque eles são muito dinâmicos e dependem de preenchimento de plataformas por múltiplas pessoas. Pode haver algum grau de imprecisão a depender de quem fala, em qual contexto que fala, mas o fato é que nós já temos mais de três mil estudantes de Física que concluíram essa pós-graduação, esse mestrado em ensino de Física em rede. É óbvio que existem outros mestrados de ensino de Física, eles existem no Brasil já há muitos anos, pelo menos desde a década de dois mil com essa terminologia. Antes disso, dentro dos cursos de pós-graduação em Física, havia as linhas de pesquisa e ensino em Física, mas, a partir dos anos dois mil, passa a ter programas de ensino de Física que vem informando professores da Educação Básica, para a educação básica e também professores para o Ensino Superior. Esse é um outro dado. Mas, tratando especificamente do MNPF, que surge em 2013, já foram formados mais de três mil estudantes nas 63 instituições que compõem a rede. E aí essa escala pode ser pensada sobre vários aspectos.
Ascom - Quais aspectos?
Marcelo - Um que eu gosto muito de fazer é o seguinte: considerando casos típicos, e sendo conservador, um professor que está ingressando agora na carreira, ou próximo disso, vai trabalhar por pelo menos trinta anos. No Ensino Médio, onde se leciona Física, cada professor de Física atua em média em 8 turmas (considerando 1º, 2º e 3º ano). Cada turma tem, em média, 30 estudantes. Portanto, podemos projetar que um professor de Física atue com 240 estudantes por ano e, ao longo da carreira de 30 anos, com 7.200 (produto dos 30 estudantes por turma pelo número de turmas por ano e pelo número de anos). Então, se nós projetarmos os cerca de 3 mil estudantes titulados, fora os que ainda virão, atuando com 7.200 estudantes cada um deles ao longo sua carreira, nós estamos falando de alguma coisa em torno de 21,6 milhões de estudantes que seriam alcançados somente por esses professores que já foram formados no Programa. Esses números são muito expressivos. Portanto, a qualidade desse Programa tem uma implicação muito forte, muito consistente com aquilo que o País projeta pra sua formação em Física e tem uma envergadura muito grande, uma capilaridade. Chega nos mais diferentes lugares desse Brasil, nas regiões mais afastadas, nas grandes cidades. Esse número de estudantes alcançados a que eu me refiro, de vinte e um milhões, tem enorme representatividade em uma rede de 47,1 milhões na Educação Básica (e, especificamente, 7,8 milhões no Ensino Médio) nas nossas cerca de 160 mil escolas no país. Então, é um Programa muito grande que tem muito alcance, um potencial enorme de influenciar a qualidade da Educação Básica.
Ascom - Muitos profissionais desenvolvem uma grande bagagem, mas sentem receio de um curso como o mestrado. Pode ser diferente?
Marcelo – Primeiro, eu começaria dizendo que faz todo sentido a experiência dos professores, todos os grandes referenciais teóricos contemporâneos colocam que não existe uma formação de professores adequada que não esteja sustentada nas experiências dos indivíduos, porque eles têm muitas experiências, aquilo que a gente chama da praxis, a relação teoria e prática. Eles carregam essa experiência desde o contato que tiveram com outros professores ao longo da sua formação desde a Educação Básica até o Ensino Superior, da prática profissional que eles desenvolvem e, portanto, eles sabem muito! Obviamente, podem não saber aspectos teóricos formais, alguns aspectos metodológicos, mas eles conhecem muito esse objeto que é a sala de aula e, portanto, toda boa formação de professor só faz sentido se ela recupera os saberes e as experiências desses indivíduos, do seu contexto profissional. Agora, existe uma translação que precisa ser feita, porque, no meio desses conhecimentos, há um monte de senso comum, de superficialidades, um monte de ideias equivocadas e que não podem ser reforçadas.
Ascom - E por que isso acontece?
Marcelo - Porque vem de uma tradição que é a da aula expositiva, do rigor das avaliações somativas classificatórias, da resolução de exercícios e etcétera e que, portanto, podem influenciar de maneira equivocada se é mantidas após uma formação. Então, esse é um ponto que é relevante e o próprio MPNEF tem no seu currículo uma previsão para comportar essas experiências, eventualmente manter aquilo que é positivo e corrigir aquilo que não é. Existem disciplinas específicas em que essas questões são resgatadas no curso e o próprio estudante, por ser um mestrado profissionalizante, tem de desenvolver ao longo do curso um produto educacional que é uma sequência didática, um conjunto de aulas, um material instrucional, um software, um experimento, um jogo, algum recurso didático que ele vai implementar em condições concretas de sala de aula, devidamente orientado por um professor da universidade, integrando inovação metodológica, ou seja, com uma metodologia melhor e com conteúdo renovado, que é o que a gente chama de uma inovação curricular. Ele vai ensinar uma Física de mais qualidade, mais profunda, mais correta e com métodos mais atualizados, mais sofisticados, mais alinhados com as demandas dessa juventude que hoje está na escola básica. E, portanto, isso automaticamente implica que ele vai recuperar a sua experiência para poder fazer o mestrado. Portanto, não é um curso em que ele vai a universidade aprender com outros como é que ele tem que fazer. Ele vai pra universidade se atualizar e aprofundar em física, se atualizar em referenciais teóricos, psicológicos, educacionais, sociológicos e, a partir da sua experiência, melhorar a sua prática profissional. Então, esse é um ponto que é muito importante: o MNPEF serve para, partindo dos conhecimentos e das experiências do professor, mas ampliando-as e qualificando-as, melhorar suas reflexões e suas práticas
Ascom - Por que o mestrado assustaria?
Marcelo - É bem verdade que o mestrado é uma formação acadêmica de alto nível e que tem muito rigor epistemológico, teórico e metodológico. Portanto, os estudantes que ingressam no curso vão enfrentar as dificuldades que são típicas de um curso de pós-graduação stricto sensu, de um mestrado. Entrentanto, o farão acompanhados por professores altamente especializados e experientes em pesquisa, que têm uma estrutura de reflexão acerca dessas próprias dificuldades e que buscam nas suas práticas colaborar para que os estudantes consigam passar com êxito por esse desafio. A experiência deles é importante; eles têm muitas coisas que, de fato, sabem, mas existe um conjunto muito amplo de possibilidade de refletir, de aperfeiçoar essas práticas e que eles vão encontrar no mestrado. Isso depende, necessariamente, de um contato mais profundo e mais qualificado com as teorias que fundamentam esse objeto que é ensinar Física. Nós nos referimos às teorias psicológicas de aprendizagem, as cognitivistas, aquelas que tentam explicar o funcionamento da mente, como é que os estudantes podem aprender, como podem aprender conceitos de Física, como é que um estudante modela na sua cabeça, como representa, como ele hierarquiza conceitos, como ele estabelece um certo campo conceitual, como ele tem um processo de aprendizagem significativa. Também há teorias que cuidam de aspectos que são mais humanistas, que dizem respeito aos aspectos fundamentalmente humanos que existem na sala de aula e o quanto que eles influenciam a aprendizagem, o engajamento, o interesse e todos esses elementos que que fazem parte do ensino de Física na escola básica. Então, a minha fala vai ser nesse sentido, de chamá-los a essa sensibilização da importância de se aprofundar nesses referenciais, da importância de dominar o conhecimento do seu campo, sem o que é impossível ser um mestre de fato no ensino de Física, sem o que é impossível dar um salto qualitativo de que tanto precisamos na Educação Básica.
Ascom - O senhor vai dizer que é difícil, mas é possível...
Marcelo - Vai ser nesse sentido e no sentido, também, de incentivá-los, dizer que eles podem alcançar de fato esse patamar superior que isso é um esforço sempre. É necessário que haja, mas que, bem acompanhados, bem orientados, estando claro a todos eles a relevância, a necessidade de aprofundar os conhecimentos em Física e de aprofundar conhecimentos teóricos e metodológicos em ensino de Física para que eles possam de fato se constituírem professores mais bem formados, capazes de manter constante a reflexão sobre a sua prática, sobre a qualidade do ensino. Inovar em termos da abordagem dos conteúdos, inovar em termo das abordagens metodológicas, inovar na sua capacidade de avaliar e de tornar esse processo avaliativo um subsídio para que os estudantes da Educação Básica aprendam mais e melhor. Então, vai ser nesse sentido a minha fala e eu espero que ela seja útil, produtiva e que, de fato, encontre os estudantes em seus anseios, nos temores que eles têm para iniciar as pós-graduação, mas, fundamentalmente, nas expectativas, porque todo estudante, sobretudo um professor em exercício que ingressa em uma pós-graduação buscando se aperfeiçoar, deve, de fato, estar aberto à possibilidade do novo, À possibilidade do desafio. E isso, se feito de uma maneira orientada e organizada, tem um potencial enorme de sucesso, que é o que todos nós buscamos.