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Livro aborda o esquecimento da cultura dos escravizados e falta de documentos sobre apogeu da cana

PESQUISA

A obra “Construindo memórias, tecendo histórias: registros do patrimônio de Campos dos Goytacazes”, publicado no dia 6 de julho, reúne uma série de artigos com diversos temas.
por Vitor Carletti / Comunicação Social do Campus Campos Centro publicado 15/07/2022 13h32, última modificação 25/07/2022 13h46
Exibir carrossel de imagens A obra reúne artigos que abordam questões sobre preservação patrimonial e cultural e formação de memória.Foto/arte: Marcelo Correia

A obra reúne artigos que abordam questões sobre preservação patrimonial e cultural e formação de memória.Foto/arte: Marcelo Correia

     A frase “Um povo sem memória é um povo sem história”, da historiadora Emília Viotti da Costa, cai como uma luva sobre os resultados de pesquisas feitas por professores (as) e alunos (as) do Curso de Arquitetura e Urbanismo, do Instituto Federal Fluminense (IFF) Campus Campos Centro.

    As investigações acadêmicas resultaram em artigos que compõem o livro “Construindo memórias, tecendo histórias: registros do patrimônio de Campos dos Goytacazes”, lançado em formato digital no dia 6 de julho. A falta de espaços públicos que resgatem as memórias dos africanos escravizados nos engenhos de cana-de-açúcar e documentos sobre a história das usinas da monocultura são resultados da pesquisa. 

    O artigo “A cor da alma: memória e contramemória”, assinado pela organizadora do livro Maria Catharina Reis Queiroz Prata e a aluna de Arquitetura e Urbanismo Letícia Leite Barcelos, traz a cultura dos escravizados em Campos dos Goytacazes nos lugares de memória da cidade. Em entrevista, Maria Catharina faz uma comparação pertinente. “A cultura dos escravizados nunca é contada! Ouvimos falar sobre barões e viscondes campistas e de seus grandes solares ou feitos, assim como destacados vultos como Nilo Peçanha e José do Patrocínio, mas teriam sido apenas eles merecedores de destaque dentre o grande contingente de pretos que aqui residiam?”, questiona.

    Outro dado preocupante para a formação da memória de Campos é a dificuldade dos pesquisadores em obter informações sobre a indústria da cana-de-açúcar, atividade econômica responsável pela formação histórica da cidade. “Infelizmente, pelo número reduzido de documentos existentes disponibilizados e dificuldades de acesso ao que resta desses bens industriais, nosso resultado foi pífio”, afirma.

Feira do Saber-Fazer-Saber
    O livro foi publicado pelas editoras associadas Laboratório de Ações Culturais da Universidade Federal Fluminense (Labac) e Instituto Grão, e será oficialmente lançado na Feira do Saber-Fazer-Saber entre os dias 21 e 23 de setembro.

 

   Leia a entrevista com a organizadora do livro e professora do Curso de Arquitetura e Urbanismo do IFF Campos Centro Maria Catharina Queiroz Prata.

Portal IFF - O livro trata de vários aspectos do patrimônio cultural de Campos. Qual é a sua avaliação sobre as atuais políticas de preservação? Por quê?

Maria Catharina Queiroz - As políticas de preservação no município praticamente inexistem. Não existem planos ou projetos a curto ou longo prazo, apesar de existir interesse de pessoas que se encontram em cargos na própria prefeitura para efetiva implementação desse tipo de ação. Vejo apenas ações pontuais sendo executadas para restauro de alguns bens notáveis, tais como o Museu Histórico, ocorrido em 2012, e hoje para a restauração do Arquivo Público de Campos, objeto de grande debate no momento, visto a divergência de opiniões entre UENF e PMCG na aplicação dos recursos. Nada sendo feito para a cidade no geral.

    Uma pequena exceção talvez seja o Programa Mais Ciência. Esse programa incentiva projetos de pesquisa, tecnologia, inovação e ciência; e visa o desenvolvimento de pesquisas e atividades necessárias ao processo de desenvolvimento socioeconômico no município. Tenho participado com alguns projetos de patrimônio e o resultado alcançado junto aos discentes tem sido gratificante. Alguns alunos que receberam bolsas em projetos anteriores vêm atuando positivamente, inclusive, junto ao conselho de preservação municipal, o que considero uma pequena vitória. Mas é preciso muito mais.

A pesquisadora desenvolve pesquisas sobre patrimônio histórico cultural.Foto: Rakenny Braga

    Campos é uma cidade histórica. Se analisarmos a cidade como um "lugar no tempo", será através do tempo passado de seu espaço construído que poderemos contá-lo, e não é possível pensar um sem o outro. Mas o que ocorre aqui é que a questão da preservação de seu patrimônio arquitetônico está subordinado ao mercado econômico, o que acaba por determinar o descaso para com um expressivo patrimônio material e imaterial.

    Se criarmos uma linha evolutiva da arquitetura na cidade, teremos condições de observarmos parte da história da arquitetura brasileira, como edifícios coloniais, barrocos, neoclássicos, ecléticos (vários!), neocoloniais e modernos. Roteiros turísticos poderiam ser criados movimentando a economia e criando empregos. Infelizmente, como disse acima, não creio existir interesse político para que isso ocorra.

Um capítulo fez um levantamento das edificações feitas na época do apogeu da economia açucareira. Como foi feito e quais os resultados?
   O capítulo resulta de uma pesquisa desenvolvida no antigo Programa Viva Ciência, "Inventário do Patrimônio Industrial do Açúcar", que objetivava inventariar as Usinas de Açúcar, Destilarias e Vilas Operárias construídas no auge do período econômico vivido pela cidade.
Infelizmente, pelo número reduzido de documentos existentes disponibilizados e dificuldades de acesso ao que resta desses bens industriais, nosso resultado foi pífio.

Como a educação do município tem trabalhado a questão da preservação da herança cultural entre os alunos?
      Da mesma forma como trabalha as políticas de preservação: pontualmente. O poder público precisa muito trabalhar efetivamente para que isso ocorra. Tenho um grande amigo, professor Vilmar Rangel, um poeta nascido na cidade, que batalha há muitos anos com essa possibilidade. Já apresentou projetos junto a municipalidade para que fossem implementadas aulas regulares de Educação Patrimonial no Ensino Fundamental. Vejo esse "o caminho": a valorização das identidades e memórias que compõem o Patrimônio Cultural de Campos dos Goytacazes, a partir de atividades e produtos vinculados para o desenvolvimento de uma metodologia de Educação Patrimonial que possibilite o entendimento conceitual em torno do significado do patrimônio cultural e que leve a população discente ao reconhecimento da identidade local, possibilitando sua apropriação, salvaguarda e preservação.

  Isenção de IPTU e fiscalização são principais medidas de preservação, informa prefeitura

       A Prefeitura de Campos dos Goytacazes, por nota, informou que adota medidas para preservar o patrimônio histórico da cidade.  "A Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima informa que a isenção de IPTU de imóveis tombados ou localizados na Área Especial de Interesse Cultural e as ações fiscalizadoras sobre tais edificações, por parte do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de Campos (Coppam), são as principais medidas adotadas pelo Poder Público no sentido da preservação do patrimônio histórico local. "

      A reportagem questionou também quais projetos ou diretrizes estão sendo executados para ensinar a importância da herança cultural e patrimonial aos alunos da rede de educação municipal. A prefeitura informou que o tema é abordado nas escolas. "A Secretaria de Educação, Ciência e Tecnologia informa que realiza projetos anuais desenvolvidos em parceria com o setor de cultura, inclusive junto ao Museu Histórico de Campos, envolvendo alunos e dando formação continuada aos professores. Além disso, especificamente no currículo escolar do 3° ano e 6° ano, nas áreas de Arte e Ciências Humanas, essas temáticas são abordadas como conteúdo. No currículo do 2° segmento, na disciplina Atividade Diversificada, essa temática é abordada como área de conhecimento."