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Gênero e Saberes
Pesquisadora do IFF evidencia a força das pescadoras
Denise conviveu com a comunidade pesqueira de Cabo Verde por cinco meses (Foto: Denise Costa).
"A pesca é do homem, o peixe é da mulher". O ditado popular ainda se impõe como realidade na cadeia produtiva do setor mantendo sua força, mesmo com a adoção de políticas públicas como o defeso, no caso brasileiro, ou de apoio ao pescador, no de Cabo Verde, arquipélago da costa africana que chamou a atenção na Copa do Mundo de 2026 pela qualidade de sua seleção. Um dos pontos de convergência dessa realidade pode ser apontado no benefício do auxílio defeso, destinado aos pescadores brasileiros e que poucas pescadoras recebem. Do outro lado do Oceano Atlântico há auxílio para a manutenção das embarcações caboverdianas, mais uma vez para eles, não há benefício para elas ainda.
A servidora do Instituto Federal Fluminense Denise Costa de Brito, doutoranda do Curso de Gognição e Linguagens da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), ressalta que nos censos realizados no Brasil, para a pergunta sobre o trabalho delas, a resposta é: "eu ajudo o meu marido", ou seja, "elas se identificavam como ajudantes e não como uma protagonista também nesta cadeia produtiva." O interesse da pesquisadora na investigação é saber como o gênero feminino aparece no Brasil e em Cabo Verde em uma cadeia de produção artesanal que conceitualmente envolve as fases de preparo para a pesca, a pesca propriamente e a pós-pesca. No caso brasileiro, as mulheres têm forte presença no antes e depois, mas não na comercialização, praticamente uma atividade masculina. Já nas zonas de pesca do país africano, elas compram o peixe trazido nas embarcações e o vende nas ruas.
- É tão desgastante! Elas andam com aquela bacia na cabeça por longas distâncias, ficam expostas à intempérie do tempo, sentadas em banquinhos nas calçadas, mão na água molhada o tempo inteiro, cuidando do peixe. Não tem um lugar onde elas possam ir fazer xixi. É na esquina", relata Denise. A rua não oferece as comodidades do mercado da cidade de Assomada, por exemplo. Há custos para manter uma banca ali.
- Fala-se muito com frequência do pescador, do comportamento do pescador, das vicissitudes do trabalho da pesca e a peixeira é um tanto quanto invisibilizada. Em nível societário ela tem pouca presença no espaço público e, se nós olharmos com atenção, mesmo as políticas públicas não abrangem a mulher peixeira - observa o professor Adilson Filomeno Carvalho Semedo, da Universidade de Cabo Verde. Sermedo é coorientador de Denise no artigo "Gênero, saberes e resistência, o reconhecimento de saberes da mulher peixeira na comunidade pescatória Baixo Lá, zona de Porto Rincão, Cabo Verde".

Observação participante - A pesquisadora e a professora Shirlena Campos de Souza Amaral, sua orientadora na UENF, submeteram o projeto para a CAPES, que oferece a possibilidade de um doutorado sanduíche com bolsa, em que uma parte da pesquisa é realizada no exterior em um período que pode chegar a nove meses. Ela permaneceu em Cabo Verde de 1º de outubro de 2025 a 28 de fevereiro de 2026. "Eu queria um país colonizado por Portugal que tivesse o mesmo sistema de interpretação da sociedade e que tivesse pesca. Aí nós temos Guiné, Angola, Cabo Verde, até Macau, na Asia. Queria, preferencialmente, com o mesmo oceano Atlântico. Um pesquisador do Pescarte (Programa Povos da Pesca Artesanal ) tinha contato com um grupo de pesquisa em Cabo Verde. Ele que abriu para mim um espaço em Cabo Verde" - explica Denise. O país oferece a segurança da estabilidade política e tem como língua oficial o português.
"Em nível societário ela tem pouca presença no espaço público e, se nós olharmos com atenção, mesmo as políticas públicas não abrangem a mulher peixeira"
No país, na prática, se fala fluentemente o crioulo, que Denise percebeu ser um movimento de resistência cultural e política aos colonizadores. O desafio da língua levou a pesquisadora a passar o primeiro mês aprendendo o crioulo - uma mistura de português de Portugal com com dialeto nativo. Para se ter uma ideia, somente na terceira entrevista feita com sua condutora na comunidade, a presidente da associação das peixeiras Maria Fidalgo (Mãezinha) é que passou a entender e a se expressar na linguagem local. Mãezinha esteve com ela em 12 portos do país e a ajudou a se estabelecer na localidade de Baixo Lá, onde vivem 28 famílias em 28 casas.
- É muito fechado! Mas eu estava com a liderança. Com ela, eu conheci todo mundo dali. Ela me levou a todos os portos e é super conhecida na Ilha de Santiago, porque ela é uma liderança de mulheres peixeiras. Ia me falando e eu vendo, porque claro, você é pesquisadora e não só escuta está vendo o que está acontecendo - revela Denise sobre o método científico da observação participante.
Isso a levou, por exemplo, a dar contribuições em reuniões com autoridades - para as quais foi convocada por Mãezinha - com ideias e informações sobre políticas públicas para melhoria das condições de trabalho e de vida das peixeiras. Ela também quer dar uma ajuda em termos da preservação da língua local de Cabo Verde. "A intenção é que elas (as falas) também fiquem armazenadas em algum lugar, porque se perdem. Lá em Cabo Verde, especificamente dentro dessa comunidade, tem uma mulher que fala o crioulo arcaico. Isso não tem registro".
Acesse AQUI o artigo "Gênero, saberes e resistência, o reconhecimento de saberes da mulher peixeira na comunidade pescatória Baixo Lá, zona de Porto Rincão, Cabo Verde".